VAZIO



Tinha acordado oca.

Se lhe cortassem ao meio e usassem uma concha de sorvete para retirar o recheio não iriam achar nada.

Não sentia órgãos nem miolos.

Os membros moviam-se por comando próprio, afinal fizeram isso por toda uma vida.

Estavam de parabéns, a princípio não conduziriam o corpo vazio para nenhum barranco.

Acreditava que precisaria de uma liturgia específica de alguma religião mágica para que seu organismo voltasse a funcionar em total plenitude.

Não lembrava de que ritual macabro viera para se encontrar nessa situação. Como poderia?

Nada lhe pertencia.

O sentido sumiu no vento dos inusitados desvarios.

Opiniões flutuantes chegavam aos seus ouvidos em forma de argamassa. Mas faltava-lhe massa.

Nem a morte, com certeza, lhe abduziria de total ausência de significado. Por certo as rezas lhe encontrariam.

Desabitada mas não inerte. Operava através dos aparelhos naturais de um corpo sem vontade.

Não sonhava mais.

Não acordou porque não mais dormiu.

Vai saber se um vampiro lhe beijou ou se foi o chão que se abriu.




Imagem: Unsplash/Yash Raut

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