QUESTÃO DE MERECIMENTO



Achas que merece. Só que não.

- Nasceu bonito, mais do que justo que todas as mulheres queiram se deitar com ele. Fato.

- Estudou cinco anos para passar em um concurso público, perfeitamente justificável não precisar ir trabalhar nunca mais, afinal já fez sua parte. Perdeu cinco anos de vida na casa da mamãe! Descanso merecido!

- Trabalhou a vida inteira para colocar a comida no prato da família – justo que sua mulher lave suas cuecas e pratos. Ela não faz nada. Fica em casa o dia inteiro. O mundo é assim!

- Levou uma facada. Quase morreu. Razoável que grite: “Porra – encheu”!

Ele é uma vítima, meu!

- Mora com idoso. Idoso dá trabalho. Depende financeiramente do idoso que tem aposentadoria no teto. Não consegue emprego. Bate no idoso. Tá certo!

- Empolgou-se com o namorado. Teve um filho. Criança chora, solicita. Não consegue navegar sossegada nas redes sociais. Seu corpo deformou. Perdeu o emprego. Espanca a criança. Coloca no elevador. Ela deu motivo!

- Acordou atrasado. Bebeu todas ontem de noite. Entrou no carro e dirigiu com pressa para chegar no trabalho. Jogou o carro para cima do outros, encostou na traseira do carro na sua frente, piscou farol, buzinou e alucinou. Gente lerda! Ele é o cara!

- Frequenta o templo de sua religião todo domingo. Ora, reza, cultua, contribui, comunga. Espanca minorias durante a semana. Faz seu papel! Cumpre a lei!

- Anda armado para se defender. Não gosta de sua cara feia e atira em você. Estava olhando o quê? Ele pode!

- Comprou um som possante pela internet. Coloca no maior volume possível. Você tem que ouvir! O seu gosto musical é imbatível! Vai reclamar?! Para quem?

- Nasceu rico. Nunca precisou trabalhar. Chama os outros de vagabundos e preguiçosos. Vai encarar?!

- Julga, critica, crucifica.

- Fala mal do chefe, da família, do colega.

- Fala deles para não falar de si.

- Está solto no Oeste.

- Deu sua contribuição para sociedade.

- Anda sem máscara no meio da pandemia. Essa gripe não lhe pega. É invencível. Acorda entubado no hospital público. Pergunta: “Por que comigo?”

Acreditem: merecer não tem nada a ver com isso.

Acasos não acontecem.




Imagem: Unsplash/Karina Carvalho

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