CELEBRAR...SEMPRE!


Em dias de pandemia estava difícil para ele.

Representante comercial, 58 anos e acima do peso.

Com o fechamento do comércio estava difícil, para não dizer impossível vender qualquer coisa.

Acostumado a jogar conversa fora com os clientes lojistas estava agora com a sua principal ferramenta de trabalho prejudicada pela malfadada máscara. Quando lhe ouviam não entendiam.

Carregar a barriga, a pasta e a máscara estava sendo complicado para ele. Até para se movimentar ficava difícil com o novo assessório da vida diária.

Era comum vê-lo tropeçar nas famosas pedras portuguesas tão características da capital carioca. A cada tropeção um palavrão.

O palavrão ajudava-o a desopilar um fígado que já não sabia mais se tinha. Andava agora pelo centro econômico da cidade em busca de lugares que acolhessem sua inquietude diante das necessidades reais de um ser humano.

Nos fast foods usava o banheiro para urgências mais selvagens e refresco do calor abissal.

Nas livrarias, agora abertas, aproveitava poltrona para descanso e alívio da mente assolada de problemas com a sobrevivência sua e de seus dependentes.

Evitava o desespero. Não era de sua índole. Mas de sua cabeça não lhe vinha um ideia de como se colocar diante da nova realidade que se avizinhava.

Sentia-se perdido e sem lugar. Na vida. No mundo.

Tinha a impressão que a vida da forma como concebia havia sido abduzida. Sua percepção o levava para um lugar onde todos haviam sido ejetados para outro planeta e aqui havia ficado ele e as baratas.

Só ele não escutou a sirene avisando que o mundo iria acabar. Filosofava.

Seu celular tocou. Acordou de súbito. Era um cliente. Encomendando um lote de duzentas caixas do produto de um fabricante que ele representava. Espantou-se. O cliente queria abastecer o estoque para o final da pandemia, vez que a vacinação estava para começar.

Ainda estava por aqui. Respirou aliviado.

Estava calor. Estava suado. Estava cansado.

Estava vivo.

Tinha muito o que celebrar afinal.




Rodada 99 Invertida Caneta, lente & pincel

Crônica: @cristinafurst.escritora

Imagem: Unsplash/Clem Onojeghuo