A LOUCA NORMAL

Não aguentava mais ficar em casa encarcerada.

Com a vacinação avançando sentiu vontade de arriscar.

Já havia tomado a primeira dose da vacina. A segunda estava por vir. Porém estava ávida para explorar a civilização lá fora.

Colocou duas máscaras e um face shield, tendo nas mãos um borrifador de álcool gel - guardando mais dois em estoque na bolsa.

Arregimentada e de chapéu lá foi ela andando devagar e borrifando álcool gel no rastro.

Entrou em uma padaria que oferecia espaço para café. Toda excitada e assustada, olhava para todos os lados de modo a se precaver de uma possível aglomeração.

Os sentimentos que lhe invadiam formavam um misto de: euforia, medo e êxtase, como se fosse uma “fora da lei”.

Como já não era mais tão jovem, percebeu que tamanho desassossego tinha feito com que urinasse nas calças. Escapou. Vergonha, pensava.

Não parava de espirrar álcool gel em tudo e em todos. No ar, na mesa, na cadeira e até nos atendentes.

Não tardou para que começassem a reparar nela.

Quando o pedido solicitado chegou à sua mesa, espalhou álcool gel também na comida, tornando o lanche impossível de ser consumido. Não adiantava reclamar.

Aquele passeio um tanto quanto imprudente estava deixando-a cada vez mais nervosa.

Agora já não conseguia levantar-se. Estava apavorada, congelada e mijada.

Pegou o celular, lambuzou-o de álcool gel e ligou para o filho pedindo ajuda para tirá-la dali.

Depois de uma hora de espera o jovem chegou. De havaianas e sem máscara, pegou-a direto pelo braço e arrancou-a da cadeira.

Ela simulou uma tontura, escondeu-se atrás de máscaras e se deixou levar cambaleante.

Não ousava pronunciar palavra. Queria chegar depressa em casa. Ouviu o sermão pela importunação sem nenhuma exclamação.

Chegando em casa, tirou toda a roupa, colocou para lavar, entrou na banheira com sais e muito sabão líquido para todo vírus expulsar.

Concluiu que não estava preparada para enfrentar o final da pandemia. O novo normal poderia até chegar, entretanto acreditava que “normal” ela jamais seria novamente.




Imagem: Unsplash/Bogdan Cotos