A FOFOQUEIRA E DOM CASMURRO


- Tô te dizendo. O guri “é cuspido e escarrado” a cara do outro. Ele só não via porque não queria. – Dona Mirtes disparou no ato.

- Daqui da minha janela eu já enxergava tudo faz tempo. Deu no que tinha que dar. Todo dia quando ele saía para o escritório, o outro, sob o pretexto de vir da padaria com o pão quentinho, entrava na casa e lá ficava por cerca de uma hora.

- Eita café demorado! É sério! Só bobo para não perceber. O menino é esperto e determinado como o pai, muito diferente do pai que pensa ser pai. Viu como ela chorou no velório do outro? Parecia até a viúva! E Quando ele a mandou simbora daqui? Tenho certeza como dois mais dois são quatro que começou a desconfiar. Agora já não sei, se o ciúme era dela ou era dele. Ouvi falar que ele tentou suicídio quando soube da morte por afogamento do amigo. Vai saber. Amizade estranha aquela dos dois casais. Tinha que dar confusão mesmo. – Entabulava a fofoqueira em uma verborreia sem fim.

Luciana a escutava mais por hábito do que por motivo.

- Estou te contando porque é para você. Vê se não conta para ninguém, se esta estória corre boca pequena pode ter até assassinato, e não quero meu nome metido nisso. – Continuava.

- Vez ou outra escuto gritaria, choradeira. Ela implora, nega, esperneia, mas a voz dele não se escuta. Ela parece histérica mesmo. Tadinho do menino, uma flor. Tenho pena.

- Como você pode ter certeza disso que está falando? – Luciana soltou.

- Ora, eu presto atenção! Não tem como ser diferente, é tanto movimento que nem consigo me concentrar nos meus afazeres. Outro dia o Oswaldo até reclamou que sei mais da vida do Dr. Bento do que da nossa.

- Tenho culpa se a vida deles é mais interessante? Aqui não acontece nada. O palerma do Oswaldo não me serve para nada. Nem para colocar o lixo para fora. Outro dia desses pedi para ele levar a Maricotinha na explicadora, a menina chegou atrasada de tão lerdo que é o traste.

- Invejo a Capitu. Tem dois homens a seus pés. Dois ex-seminaristas. Devem ser ótimos de cama depois de tantos anos de abstinência. Apetite não deve faltar. Não podem ser igual ao Oswaldo que não tem mais ereção. – Falava meditabunda com o olhar perdido no céu com nuvens.

- Agora ela engrenou. Luciana pensou. - Vai fazer calo no cotovelo de tanto ficar pendurada nesta janela!

- Prefiro ter calo no cotovelo do que na língua. Ela ainda me serve para muita coisa. Você reclama, mas sei que gosta muito de ouvir as fofocas. Nunca me interrompe - e se passa aqui todo dia perguntando das novidades é porque quer saber.

- Grossa! – Luciana chiou.

- Grossa não. Sincera. Não invento nada. Falo o que vejo. Agora vê, depois que a mulher morreu deu para escrever. Dona Glória é que estava certa quando quis que ele fosse padre, vai ver já estava adivinhando. Culpa do José Dias. Também nunca entendi este agregado na casa da viúva dando opinião na vida da família. Mas isso já é assunto para outro dia. Onde já se viu um homem daquele tamanho, advogado, casado, pai de família ser chamado de “Bentinho”?! Mimou tanto o garoto que deu no que deu.

- Eles enganam a ela, a mim não. Toda essa presepada para fingir ciúme de mulher. Foi ele quem ficou arrasado com a morte do outro e para sofrer sossegado mandou a mulher para longe. Isso sim. Oswaldo é mole porém é homem!

- A dissimulada também não fica atrás, planejou tudo isso para resolver de vez a vida. Nunca gostou de ser pobre. Deus me livre falar de morto! Mas vivia aí pela rua desde pequena seduzindo todos que pudessem vir a lhe proporcionar um bom futuro. José Dias pescou logo qual era a dela, depois arregou e ajudou a tirar o garoto do seminário. Tenho para mim que fez isso porque suspeitou de algo estranho entre ele e o tal do amigo. – Elucubrou.

- Deu tudo errado. Saiu da mão de um caiu na mão do outro. Ninguém controla o destino, não acha? – Parou para engolir saliva e deu uma chance para Luciana falar.

- Eu não acho nada. Quero morrer sua amiga. Essa estória está ficando cada vez mais cabeluda e meus miolos já estão queimando. Não sei de onde você tira tanta imaginação. Devia ser escritora, ideia não lhe falta. – Retrucou embasbacada Luciana.

- Não invento nada, já te disse. Não sou burra. Junto os pauzinhos. Só observo. Conto para você porque não sou de ferro e não sou candidata a nada. E também porque se não falar com alguém passo até mal.

- Quero ver o que vai ser da vida dele agora. O menino que agora já é homem, ele não quer ver nem pintado. O mancebo traz lembrança que ele nem sabe se quer esquecer. Acho que este Bento é meio pirado.

- Tô sabendo que está de mudança lá para os lados do Engenho de Dentro. Dizem que a casa é igualzinha a esta aqui defronte. Onde já se viu alguém que sofreu tanto, espezinhado com o chifre, querer construir moradia idêntica àquela onde penou tanto? – Destilava sem filtro o veneno.

- Meu problema é que penso muito. Agora mesmo estou a pensar com a vida de quem vou me distrair quando Dr. Bento não morar mais aqui. Difícil encontrar outro vizinho com uma estória que dê tanto assunto para conversar quanto a dele. Vou sentir falta. Confesso. – Eu também balbuciou Luciana.

- Enfim, não tem o que fazer hoje Mirtes? Esta conversa está longa demais. Já deu até para virar filme. – Tentava Luciana finalizar conversa.

- Tens razão. Admitiu Mirtes. Afinal o tempo que estou aqui de conversê com você já teria dado tempo de cozinhar um feijão para o almoço. Oswaldo deve estar para chegar com aquela fome peculiar. Amanhã te atualizo das novidades. Pense bem, melhor cair em graça que ser engraçado.

- Agora vê se fui eu quem segurou ela na janela? – Riu por dentro Luciana.




Imagem: Craig Toron/Freeimages/Stock Photo


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