A CERIMÔNIA



Acabara de sair do aniversário de três anos da filha de uma amiga.

A ida ao evento já tinha lhe revolvido a memória. Afinal, retornara ao bairro onde nascera e fora criada. O cheiro característico da cidade, a arquitetura, contornos, cores, mexia com emoções esquecidas e soterradas. Hermeticamente embaladas e guardadas no sótão de seu ser e até agora.

Extasiou-se com o acolhimento da família e a alegria intrínseca da aniversariante que sabia ser especial naquele dia. Não saiu levitando porque se excedeu nos quitutes.

Distava cem metros do local onde havia estacionado o carro, uma igreja tradicional e antiga do bairro. Na calçada à sua frente, o cenário já retratava o por vir. Os trajes dos transeuntes, o perfume no ar, tudo revelava o acontecimento. Não precisou nem esperar. O carro preto que conduzia a noiva estacionou e dele saltou majestosa e impávida aquela que seria a estrela da noite.

Não resistiu fez o sinal da cruz e entrou na igreja. Não estava adequadamente vestida para o evento, o que lhe custou olhares esquisitos.

Alojou-se no fundo da nave para testemunho de tão especial sacramento. Foi abordada por uma senhorinha, que se sentindo cúmplice, declarava estar ali pelo mesmo motivo. Comentava que aquele era o casamento das dezenove horas, já tendo assistido ao das dezoito, o que a fez lembrar do filme “Ensina-me a viver” onde a protagonista era apaixonada por enterros, e não costumava perder nenhum em sua cidade.

A Ave Maria de Gounod como um arauto anunciava o início do evento. A comoção invadiu seu corpo. Inevitável. Sentiu-se abençoada.

Convidada para um Bar Mitzvah no mês passado também se encantou com o ritual da celebração nas palavras proferidas pelo rabino, bênçãos, balas e o passeio do menino-adulto conduzindo o Torá pela sinagoga. Na festa as danças judaicas empolgaram-na a ponto de se meter na roda e tentar girar com as judias.

Visitando um terreiro de candomblé em dia de festa, observou que todos vestiam branco. A preparação, a devoção, dedicação e concentração dos participantes no ato de fé orquestrado, colocava todos em um patamar sutil e energeticamente diferenciado. Um transe único e singular se apresentava. Indescritível a sensação.

De outra vez, participando de um curso, dançou em círculo com mais trinta e cinco pessoas. A alegria lhe invadiu e contagiou. O corpo se expressou. Os hormônios transitaram livremente pela corrente sanguínea. Seu quadril destravou. Seus ombros relaxaram e seus braços e mãos manifestavam-se sincronicamente em uma demonstração clara de que tinham vida própria.

Cerimônias e rituais unem os homens em sua humanidade. A razão não opera. Transcende. A entrega, a vontade da alma, a união com o cosmos absorve promovendo um inusitado encontro com sua singularidade refletida no coletivo.

Juntos em comunhão e consagração o homem se completa no conjunto de seus pares

A cerimônia preenche. Invade. Transborda. Revela. Une. Expõe. Ama e descontrola.

Cerimônias têm sons, aromas e cores. Celebrações marcam as etapas da vida.

Arrebatam a criatura e espelham a alma do criador.

Imagem: elaborada pela autora


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