MATRIX



Achava que vivia na Matrix ou talvez em um conto de fadas, o que dá no mesmo de certa forma.

Trabalhava fazia quase trinta anos no legislativo e sentia-se a própria enxugadora de gelo.

Nada parecia real. O tempo de acontecimento das coisas não era verdadeiro, o nexo causal também não e a executoriedade muito menos.

Só não se sentia mais frustrada do que imaginava ser um médico de hospital público – estudou, formou, fez residência, passou no concurso – mas não pode tratar ou curar o paciente por falta de insumos básicos.

Divagava: leis inócuas, despiciendas, dificultadoras e oneradoras da vida do cidadão criadas para alimentar uma engrenagem sistêmica que serve somente a alguns. A mídia encorajadora e ávida de volume legal pressiona o enxame de normas que nada acrescem à vida cotidiana. Ao gestor – por vezes coitado, mas nem sempre - resta tentar cumprir os ditames objetivos dos regramentos, que de tão encaixotados engessam sobremaneira a conduta do administrador. Ao togado cabe atender às demandas, dirimindo conflitos cujas regras basilares inexistem. A máxima de que o costume é fonte secou na nascente da teocracia.

Tal estado de coisas a deixava macambúzia. Não tinha mais ânimo ou vontade de se levantar da cama e ir para o trabalho.

Recordava com ternura de quando começou. Naquela época acreditava inocentemente que iria contribuir para a cidadania, e que o exercício de suas funções a orgulharia enquanto cidadã de bem, pelo menos julgava ser. Digna pagadora de impostos.

Ledo engano. O estresse vivenciado ao longo dos anos, presente na angústia dicotômica entre sua consciência e sua sobrevivência, a fez adoecer.

Consciente em sanidade no final da vida perguntava, se ao outro – seu igual em humanidade - ocorreria que vivia em uma realidade induzida, fabricada. Como na Matrix, conduzida pelo sistema, segue em frente e com antolhos na busca de corpo que não é seu, de emoções que não lhe pertencem, de objeto que não precisa.

Acreditava que as leis originariamente pensadas para proteger direitos e normatizar as relações entre humanos, hoje serve a outros senhores desprovidos de humanidade.

Sentia-se perdida e catatônica. Velha e cansada não se via em condições de lutar, reagir ou se insurgir contra o estado de coisas que sua louca esquizofrenia a fazia deduzir.

Pedia aos fantasmas de seus devaneios que salvassem este mundo. Afinal, era ainda bonito demais para querer descer. Não ainda.

Imagem: Unsplash/Markus Spiske


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