CEMITÉRIO


Tinha a cabeça pequena para um corpo enorme.

O que não dava a ela um tom desproporcional, pelo contrário, parecia impingir uma certa magnitude.

Sentia cheiro de cemitério de longe. Tinha esse dom, se é que se pode chamar isso de dom.

Mesmo em visita a uma cidade desconhecida era capaz de encontrar o cemitério só pelo cheiro, assim dizia.

Tive a oportunidade uma vez de estar com ela em um passeio de carro, passávamos por uma bifurcação onde se via à direita um pequeno monte em aclive. Ela logo falou: “Ali tem um cemitério”.

Cética aquiesci, mas não me impressionei.

Entretanto em outra feita, com mais vagar, me permiti visitar tal monte. Era um outeiro bem singelo em cujo topo tinha uma modesta igreja. E não é que nos fundos da pequena igreja tinha um cemitério. Também pequeno, modesto, mas sim, de fato um cemitério.

Não me surpreendi.

Confidenciou-me gostar de passear em cemitério quando queria pensar.

Nessas ocasiões ao entrar pedia licença – nunca se sabe – procurava o cruzeiro e junto da grande cruz se sentava. Estando assim acomodada passava a pensar. Pensava, pensava, agradecia e cerimoniosamente se despedia, não antes de fumar meio cigarro. Ia embora do mesmo jeito que chegou, tranquilamente.

Nunca entendi, e para ser sincera, não quero entender. Tenho medo dessas coisas.

Mas era estranha, lá isso era.

Era áspera e afetuosa ao mesmo. Tipo de pessoa que você não consegue decifrar os sentimentos que provoca. Ora gosta, ora desgosta.

Entretanto não se considerava uma pessoa incomum.


Não via nada de mais em suas esquisitices.

Dizia que rezava quando saía de casa. Perguntei qual oração.

Não soube responder. Falava que cada dia pensava em alguma coisa. Dependia da cara do dia. Afinal, não podia ter uma reza igual para todos os dias. Os dias não são iguais, completava.

Como se não bastasse, benzia-se, rezava-se, jogava sal no rastro, adorava uma caveira e uivava para lua.

Nem sei porquê andava com ela. Acho que tinha receio de deixar de andar.

No meu imaginário achava que era ela uma bruxa ou mandingueira. Acalentava com carinho e excitação esta ideia.

Entretanto observando sua vida logo percebi estar enganada.

Não me parecia afortunada, não tinha um amor e nunca soube de ter família.

As pessoas a procuravam, nem sei bem para quê. Ela falava, falava e falava e elas iam embora. Se lhe davam algo em troca, nunca vi.

Sei que parece que não morre. Mas sabe como ninguém onde fica um cemitério.

Imagem: Unsplash: Aaron Burden


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