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MÉDICO#MONSTRO


Áurea completa depois de amanhã sessenta e dois anos. Idade para se respeitar. Afinal, meio século e mais um pouquinho já se foram.

“Nunca fui escrava da beleza” - alega em sua defesa para justificar a significativa percentagem de gordura abdominal que pretende perder um dia. Quem sabe?

Alegre, de natureza extrovertida herdada da avó materna, é costumeiramente simpática com todos que porventura tenha que se relacionar. Para mim, Áurea era tal e qual a Irene de Manuel Bandeira: “...Irene boa. Irene sempre de bom humor. Imagino Irene entrando no céu:.... licença São Pedro! - Entra Irene. Você não precisa pedir licença.”


Porém, dia desses ocorreu na vida pacata de Áurea uma situação que a tirou íntima e profundamente do sério. Assim ela me contou.

Precisava ir ao oftalmologista para um exame de fundo de olho.

Portadora de diabetes tipo dois, o exame era uma rotina anual que cumpria fidedignamente.

Estava em cidade que não era a sua natal, pediu então para conhecidos a indicação de um oftalmologista. Com o contato em mãos marcou a malfadada consulta.

O consultório em si, na sua forma física, refletia a primeira vista a energia do que estaria por vir. Mas, como não era dada a prejulgamentos, aguardou pacientemente sua vez.

Chegada a hora, foi conduzida por um corredor cheirando a cigarro até o consultório onde seria atendida.

A sala era ampla, tinha uma iluminação indireta que não a deixava muito clara, o ambiente era soturno, contrastando com tudo o que era Áurea.

O cenário completo incluía ele - o médico. Alto, com aproximadamente setenta anos, magro, calvo, usando um jaleco branco. De forma autoritária ordenou que sentasse e começou a fazer a ficha. Perguntou sobre idade, peso, remédios que fazia uso, enfim, todas as perguntas necessárias para uma anamnese. Ao perguntar o porquê do exame, ela explicou que era uma rotina decorrente de seu diabetes.

Desta feita o roteiro de terror se desenrolou. Mirando diretamente em seu abdômen, e ainda sem examiná-la, disse-lhe que ficaria cega, isso seria inconteste, caso não fechasse a boca.

Apavorada, argumentou em sua defesa que se esforçava para fazer exercícios físicos, sempre caminhava, e que procurava comer de forma regrada, obviamente não convenceu.

A impressão que ela tinha era que nada do que dissesse faria mudá-lo de ideia, afinal sua barriga era prova inequívoca de seus desregramentos e contra fato não há argumento, ponto.

Ao ser enfim por ele examinada, Áurea sentiu de perto o odor de cigarro. Agora ela sabia quem era o responsável pelo cheiro no corredor. Ele era fumante, ora vejam!

Terminado o exame perguntou se estava tudo bem. Ele, a contragosto, aquiesceu, balbuciando de forma inaudível palavras incompreensíveis, não deixando de salientar sua iminente cegueira em algum momento da vida.

Por fim, relutando em não chorar, solicitou cheia de dedos um laudo para levar para sua médica, o que resultou em um documento ilegível, que Áurea espera sinceramente que ela possa decifrar.

Ao sair agradeceu educadamente.

Depois me contou que pensou assim - com toda força d’alma e sem nenhuma culpa no coração: “Ano que vem infelizmente não poderei fazer o exame com ele, pois sei que vai viajar.”

Sabia também que ele não voltaria da viagem.

Perguntei: ”Como você sabe?” Ela me respondeu quase sorrindo: “Bendito cigarro!”

Imagem: ilhacult.blogger


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