UM SER NO MUNDO


O sol já chegou queimando.

A movimentação dos pedestres na calçada o obrigava a levantar.

Gostaria mesmo era de continuar deitado.

Levantou, dobrou o cobertor que ganhou na igreja, arrumou suas coisas no carrinho de feira abandonado em um lixo na Zona Sul e se espreguiçou. Guardou toda sua vida em quatro atos, e alojou-a nos fundos da banca de jornal.

Seu dia estava começando.

Preparou-se para sair em busca do alimento.

Colocou uma máscara cirúrgica, sentou na esquina em posição de lótus e iniciou um movimento de balanço orquestrado para o fiel cumprimento da liturgia do pedir esmola.

Sentia indiferença e repulsa. Dos culpados conseguiu o suficiente para o café.

Na padaria do bairro suplicou por uma média com pão na chapa. Não obteve sucesso. Não deu para economizar. Teve que pagar.

Após a refeição degustada com fidalguia, retornou para esquina acomodando-se de volta na posição.

Hoje o dia estava com cara de caça.

Demorou a desistir, porém se guiava pelos períodos do dia e o entardecer se aproximava.

Quando o sol desapareceu foi até praça, banhou-se no chafariz - lavou a roupa suja e surrada.

Enquanto secava no vento fumou a metade de um cigarro abandonado na calçada por algum fumante descuidado.

Vestiu-se e foi para frente do restaurante do quarteirão. Angariava trocados orientando motoristas famintos a estacionarem.

Já na madrugada conseguiu comer sobras descartadas pelo cozinheiro de plantão.

Voltou para seu abrigo na calçada garantido à base de pancada.

Pegou sua vida guardada na banca de jornal.

Revirou as memórias que lhe restavam descartadas no relento.

Esgotado adormeceu. Pensando sonhar sentiu esquentar, depois arder. Mal conseguiu respirar.

Morreu queimado, desabrigado, abandonado, mas nunca ignorado.

Desintegrado em matéria, viveria em conceito na luta contra todo tipo de intolerância e preconceito.





Imagem: Unspalsh/Dynamic Wang

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