DE VOLTA AO SENA



Essa era sem sombra de dúvida sua estação favorita. Sofria ao pensar na possibilidade de não mais vir a sentir prazer ao pisar nas folhas caídas das árvores que despem-se. Encontrava-se agora acamada em estado vulnerável para a dignidade humana. Vencida por inimigo oculto que nunca viu, sequer encarou e tampouco tinha conhecimento de ter reagido reativamente. Mas ele a pegou. Nem foi em uma curva. Foi na reta mesmo. Derrubou-a de tal jeito que sentia-se forçada a se despedir sem adeus. Restava-lhe a liberdade da mente que a levava para onde quisesse ir. Pensou em aproveitar. Viu-se caminhando às margens do Sena. Lembrou-se de quando sofrendo por amor e julgando-se sem rumo na vida, pensou em jogar-se em suas águas nada claras – justamente por isso. Se adivinhasse que a vida poderia lhe ser tomada de forma tão desonesta teria se jogado. Seguiu até o Le Depart Saint-Michel e degustou o café da manhã que julgava merecer. Caminhou de volta para casa sentindo a brisa no rosto e agradeceu por estar viva. No hospital não voltou a acordar. Estava viva … mas em outro lugar.

Imagem: Marcia Magda Marcos

Rodada 95 @caneta,lente&pincel

38 visualizações

© 2017 Cristina Fürst. All Right Reserved.