CRÔNICA DE NATAL

Atualizado: 19 de Ago de 2019


Acordei azeda, pelo lado esquerdo, virada no samurai, com a avó atrás do toco.

Estava exausta. Esta época só é comparada a uma corrida com obstáculos. E olha que nunca participei de nenhuma.

Não diferente das demais pessoas – de forma geral - deixei tudo para a última hora. Nessa época os dias embolam com as noites. Parece um efeito generalizado e sobrenatural inexplicável.

Outro não poderia ser o resultado, depois da passagem desta maratona imposta culturalmente, do que uma crise de mau humor.

Cansada, mas aliviada. Era assim que sentia. Ressacada no trabalho tinha agora que lidar com as perguntas de sempre: “Como foi seu Natal?” “Ganhou muito presente?” “Vai fazer o que no ano novo?”.

Ainda curtida no vinho e regurgitando tender como poderia saber em sã consciência o que iria fazer no ano novo?

Haveria alguém tão organizado assim que soubesse? Se tal ser humano existisse, gostaria de conhecer.


Invejo incrédula aquela que diz já ter a ceia encomendada, os presentes comprados e os ingressos para a noite de réveillon em um hotel famoso adquiridos desde setembro. Com certeza nascera com algum cromossomo a mais.

Nenhum ser humano médio – normal – consegue. Fato.

Alguma coisa sempre sai faltando por mais que você se esforce.

E para não deixar de falar de shopping, vamos lá: filas imensas desde a entrada até as lojas. Clima de estufa no estacionamento simulando ambiente de inferno. Crianças gritando, pessoas empurrando, restaurantes lotados, banheiros insalubres, e você ali procurando um sentido para tudo isso, que com certeza não pode ser só por causa do nascimento de Jesus.

Tem mais.

O que dizer daquela situação em que você passa a madrugada de vinte e três para vinte e quatro de dezembro com a barriga no fogão fritando três pães de rabanada para levar para a ceia na casa da sua prima casada com um funcionário público aposentado – e justo por isso tem uma casa maior. Você viaja atracada com o prato no colo para garantir que nada aconteça com o quitute.

Aquele vento quente, bafo, lambendo seu rosto, não podendo ligar o ar condicionado do carro porque seu marido é fumante e não para de fumar nem quando dirige.

Depois de duas horas, suada, grudenta, mas orgulhosa, você chega ao local da festa e entrega a iguaria, destaque do natal aguardado por todos. A dona da casa, maquiada, fresca e com a casa decorada estilo “casa & jardim” alardeia no meio da sala que ao tirar o papel alumínio que cobria suas rabanadas constatou que elas estragaram, comentando dissimulada e prazerosamente que o sucedido aconteceu provavelmente por conta do calor da viagem.

Óbvio que você procura o canto mais acolhedor da casa para sentar e se esconder. Como se isso fosse possível.

A comilança corre solta. Os parentes e convidados que já estavam no local quando você chegou estão bêbados. Ou quase, sendo este o melhor momento para o famigerado amigo oculto.

Algum infeliz inventa que nesse ano as pessoas devem fazer menção a um animal como sugestionamento para que os demais adivinhem quem seria o sorteado.

Não poderia vir boa coisa daí. Pressentiu.

Seu cunhado, já todo curtido na cerveja, te define como uma barata, afinal você é rasteira, insignificante e geralmente invisível, na opinião dele, querendo dizer que ninguém te nota. Não convenceu. Barata é sinônimo de nojeira, e quem consegue ver uma em geral sai correndo.

A situação ainda piora quando acontece daquela pessoa que nunca te dá nada no Natal, mas justamente nesse chega para você com um presente caríssimo. Você, dura e sem graça, não tem absolutamente nada para retribuir além do seu meio sorriso de constrangimento.

Para sacramentar as razões do azedume, o seu presente, aquele único que te agradou, pois foi você quem comprou, veio com defeito e a loja não pôde efetivar a troca por outro igual, uma vez que o modelo que você levou era único e o último da loja.

Hão de convir. Não tem humor que resista.

Acredito realmente que o que faz com que sobrevivamos ao natal é o ano novo.

Ainda que os céticos sustentem que é só mais um dia atrás do outro, o ciclo ainda que simbólico acaba, com você acabada, mas acaba. E nem venham falar em enterro dos ossos. O que você quer mesmo é correr para sua casa, deitar os seus na sua cama e só acordar no ano que vem.

Imagem: Unsplash/Bruno Martins


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