O QUE ACONTECE QUANDO CORRO



Despertei, ainda que tarde, para duas grandes paixões adormecidas: a escrita e a corrida.

O resgate dessas paixões acomodou meu eu no vestido.

Já praticava corrida. Só que em menor escala. Corria de forma intercalada. Sem rumo e sem destino.

Instada a participar da meia maratona do Rio de Janeiro de 2018, comecei a me dedicar com mais afinco ao esporte com oito meses de antecedência. Queria muito conseguir completar o circuito.

Simultaneamente inscrevi-me em um laboratório de escrita criativa. A coincidência não foi proposital.

Acho que meu eu estava em busca de minha essência há longo tempo.

Correr me proporciona prazeres e descobertas a todo momento.

Aprendi a calcular quilômetros no tempo, entendi o que é pace, descobri minha pisada e qual o tênis próprio para ela. A alimentação mais saudável precisou ser implantada no meu dia a dia.

Escrevendo acabo com meu mau humor crônico. Posso estar em um de meus piores dias, como digo: com a avó atrás do toco. Entretanto, é só acabar um texto seja de que gênero e tamanho for, para o meu humor mudar automaticamente para o de uma pessoa que não conheço.

Correndo e escrevendo encontrei meu lugar no mundo.

Encontrei minha praia. O êxtase foi completo.

Indescritível a sensação de conseguir terminar uma meia maratona. Cheguei em último lugar. Literalmente. Mas cheguei. Venci minhas limitações. Realizei o que me propus, e isso me deu consciência de que podemos sim conseguir qualquer coisa. Basta querer o bastante.

Escrevendo me surpreendo. O texto me revela, anda sozinho, as palavras, milhões delas -que nem sabia que existiam - pululam em meu cérebro despertando ideias que eu nem sabia ter dentro de mim.

Durante a corrida quero morrer. Já tenho que sair decidida de quantos quilômetros desejo correr. Se deixar para decidir na hora corro apenas quinhentos metros. No meu caso específico a endorfina nunca chega no momento em que a corrida acontece.

Chega no dia seguinte quando me movimento melhor na vida útil, quando subo e desço escadas no trabalho e não fico ofegante, e quando acordo mais bem disposta que de costume.

A cada minuto reduzido no tempo do percurso me sinto uma vencedora.

Quando corro sinto cheiros, vejo cores, sinto a vida pulsando em todo o meu corpo.

Emagreço.

Quando escrevo sinto a vida se formando em meus pensamentos dentro do meu cérebro, resgatando minha alma.

Não consigo conceber como pude viver todos esses anos tão distante de mim.

Correndo e escrevendo meu eu ficou completo.

Imagem elaborada pela autora


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