NOSTALGIA

Atualizado: 22 de Ago de 2019



Demorava. Mas era delicioso o tempo de espera na fila das barcaças. Adorava! Uma das melhores sensações do mundo é poder esperar.

Aquela total e absoluta ausência de pressa.

Que delícia! Pois eram assim nossos domingos.

Mamãe nos vestia com as melhores roupas que possuíamos, confeccionadas em costureira amiga.

E lá íamos nós, embonecadas e apertadas em um Fusca café com leite, que como mágica transformou-se tempos depois em uma Variant azul.

Bons tempos! Há quem os chame de carroças, mas para nós ter uma carroça que andava em quatro rodas era um luxo!

Anos setenta, a ponte não tinha sido inaugurada, o que tornava a travessia Niterói/Rio somente possível de carro fazendo uso da barcaça.

Por isso a espera. Chegávamos cedo ao cais, afinal, a fila era grande. Somente depois de embarcados papai deixava que saltássemos do carro.

A travessia era demorada, cerca de uma hora. Para nós era pura diversão. A brisa marinha no rosto. A ansiedade de ver o Rio se aproximando.

Na época de Natal então, era particularmente encantador.

Como dizem os cariocas, fazendo troça com quem é papa goiaba, ou seja, de Niterói – como eu - a melhor coisa que existe lá é a vista para o Rio! Brincam.

No Natal recordo-me de ficar maravilhada com a decoração no Parque do Flamengo.

A iluminação dos postes simulava árvores de natal coloridas. Era fascinante, para mim. E a Estrela de Belém no alto do relógio da Mesbla? Anunciava magnânima a chegada do verão, final do ano letivo e férias! Tudo junto. Só coisa boa! Desembarcávamos na Praça XV e no trajeto pelo Aterro do Flamengo eu focava todo o meu olhar intensamente nas árvores decoradas, que eu deslumbrada via lá de casa. Excitada queria poder enxergá-las de perto.

Chegávamos então à casa de nossas tias em Botafogo, na Voluntários.


Era uma festa! Elas nos recebiam de forma que nos sentíamos as pessoas mais importantes do mundo.

Cada uma de nós tinha entre elas sua madrinha. E isso era questão de honra. Existia uma regra velada entre elas de que uma não poderia agraciar de forma desigual a afilhada da outra.

Tínhamos reservados nossos lugares na mesa da sala de jantar – antigamente os apartamentos de classe média tinham sala de jantar – e em cima de cada prato tinha uma lembrancinha adequada às nossas preferências pessoais.

Após o almoço éramos encaminhadas ao quarto delas. A sesta era sagrada e inconteste.

Eu era acomodada no das minhas madrinhas (crisma e consagração) e minha irmã no da madrinha dela.

As roupas de cama eram de seda, as fronhas dos travesseiros faziam meu rosto escorregar.

A imposta soneca, para mim naquele quarto escuro, era uma missão particularmente impossível, vez que a devoção católica de minhas madrinhas faziam-nas ter em cima do móvel de quarto uma série de santos, devidamente preservados em pedestais com proteção de cúpulas de vidro, que fosforesciam no quarto escuro, me apavorando.

Com a ordem de levantar – éramos obedientes naquela época - corria direto para o quarto dos fundos do apartamento. Quarto da Maria Cândida.

Adorava sua colcha de retalhos e suas almofadas de fuxico. Até hoje guardo na memória o cheiro do seu quarto. Parecia que só ela me entendia.

A maionese caseira que ela preparava só para mim era divina. À tarde fazíamos apresentações para as tias e recitávamos versinhos. Eu pessoalmente odiava esta parte.

A volta era tão festiva quanto a ida.

De volta à barcaça, uma vez embarcados, tínhamos direito a comer o cachorro-quente da Geneal. Era só pão e salsicha, mas era o melhor cachorro-quente do mundo! Não tinha ovo de codorna, não tinha batata palha, não tinha maionese de ervas, mas ainda assim era inquestionavelmente o melhor. E tudo isso com o Rio de Janeiro ao fundo.


Imagem de senhoras ao piano do acervo da autora


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